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Den e o Dragao - Cap. III by ~Baikal-cloudwolf:iconBaikal-cloudwolf:



Den e o Dragão – Capítulo 3 – A Casa dos Encantadores de Feras

Afastado quase meio dia de caminhada da comunidade mais próxima e aninhado junto a um grande rochedo, encontrava-se o lar de Roderic e seu pai. Tal morada consistia em apenas três paredes de madeira com um teto feito de peles de animais costuradas e armadas sobre o forro, os fundos eram cerrados pela rocha nua com as frestas de junção da pedra com a madeira cobertas por barro. Bem antes disso, existiam árvores antigas, pinhos compridos e secos, uma neblina gelada e a sombra de uma paliçada de estacas compridas se espalhava por um dos lados da cabana.
- Um campônio me disse que teu pai é um encantador de feras. Tendo dias ruins? – Den disse, indicando com o cabo de seu machado o cercado vazio.
- Não, mestre anão, os negócios de meu pai têm ido bem. Há poucos dias ele vendeu, para um cortesão, uma raposa-brisa e dois ursos cinzentos. Deve ter saído com o grupo novo que capturamos. – respondeu, ponderado e com muita calma, Roderic, à provocação do anão.
Den, contudo, achou no orgulho ferido do rapaz uma boa fonte de informações. O pai dele deveria servir para o fim que tinha naquela visita. Seu companheiro, o dragão, esquecia da presença deles e entregava-se ao exame dos novos cheiros daquele lugar. Nas árvores e nas cepas de troncos, na trilha bem marcada por pisadas fortes e... Roderic estava na frente do jovem dragão antes que ele corresse para o cercado.
- Calma lá, os moradores não vão gostar de saber que esteve alguém na casa deles enquanto estavam fora. Vamos esperar que eles voltem primeiro. Mestre anão, têm lugar para passar a noite? – Roderic abaixava as mãos e as levava em direção aos pescoços do dragão, que acatou a instrução de esperar porque os gestos usados eram bem claros e o tom da voz sugestivo. Além disso, havia cheiro de carne vindo da cabana.
- Já está tarde e só chegaríamos em uma estalagem na aurora. O único lugar para passar a noite é a estrada.
- Então fiquem aqui, meu pai pode vir a passar a noite inteira no passeio. Enquanto ceiamos e esperamos, poderia me contar como conseguiu este filhote de dragão. – Roderic deixou o afago no dragão para ir à porta, deixando ela aberta para que os dois entrassem.
- Prefiro esperar calado e tratar o assunto com o mestre de feras pessoalmente. – Den responde, aguardando que o dragão entrasse para segui-lo cabana adentro.
Roderic deu de ombros, fechou a porta e foi direto à lareira buscar uma chama para acender o lampião. As três cabeças já fungavam por toda a parte. Começaram a beliscar o ar buscando algo acima delas, que com o lume aceso por Roderic, revelou-se um poleiro com uma ave de penas multicoloridas e compridas. Ela grasnou incomodada e o dragão recuou para preparar um bote certeiro. Roderic não pareceu preocupado e, talvez por isto, Den também não. Quando o filhote saltou de asas e garras abertas sobre a ave, ela lhe fitou com seus olhos azuis bem escuros e o dragão guinchou de dor por um momento, errando o bote terrivelmente, enquanto o pássaro levantava vôo para um poleiro do outro lado.
A queda foi seguida por um rolamento até que o dragão bateu em um cesto de vime e parou, enrodilhado em uma bola de cauda e pescoços. O som da queda foi coberto pela risada de Den. Roderic sorriu amarelo e andou devagar para perto da ave, levando como mimo um gérmen de trigo.
- É uma ave-íris, mais que um pássaro ornamental, é um vigilante excepcional. Um olhar e ela ataca a mente do agressor. É como o mestre das serpentes, o basilisco – eu acho – mas como não é um predador, o dom dela não paralisa, só atordoa. – ao término da explicação, a ave-íris já tinha levado o alimento pelo bico e piava satisfeita.
- Interessante. – soou baixa e grave a voz de Den, enquanto passava a vista pelo lugar.
Tapetes de peles de ursos – ou animais parecidos com ursos – cobriam boa parte do chão rochoso. Cestos e baús deviam guardar os objetos pessoais daquela família, lanças e arcos estavam pendurados nas paredes, combinados com espetos de lenha, pedaços de carne seca, um lenço nas cores marrom e amarelo e um prato decorado. Uma combinação fortuita, pelo que entendia Den. Na lareira, uma panela de ferro ferventava o miolo de ossos, preparava-se uma refeição forte ali.
A cabeça da esquerda puxava o corpo na direção das carnes penduradas, a mediana atentava para o cheiro forte da panela e a da direita permanecia tonta pelo golpe mental.
- Sente-se, mestre anão, vou lhe servir um pouco de caldo. – dizia Roderic, pegando uma peça de carne seca e cortando em três partes com a faca que tinha em sua cintura, assim mantinha o dragão ocupado enquanto se distraía com a panela. Enquanto sorria ao ver o ânimo das cabeças de dragão em comer, algo lhe veio à mente. – O seu nome, Mestre Anão, ainda não sei. Como devo chamar o hóspede que levo a casa de meu pai? – sorriu outra vez, mas agora constrangido.
Dungh havia demorado para se sentar, cansado e com dores no corpo, preferiu ir com cuidado. Quando finalmente se sentou, ouviu a pergunta e tornou a se levantar, para fazer uma reverência honrosa e se apresentar.
- Dungh. É como os homens costumam me chamar. – não diria seu nome de anão a qualquer homenzinho que lhe perguntasse, Den tinha esta convicção. Pela cultura de seus ancestrais, saber o nome de alguém é ter poder sobre esta pessoa. Um anônimo é uma pessoa livre para fazer o que quiser, embora não tenha muitos que nele confiem...
- Prazer em conhecê-lo Dungh. E o dragão, tem nome? – removeu a tampa da panela e aspirou o odor de gordura do caldo. Tomou um caneco de barro cozido e uma concha de madeira, servindo o jantar do anão.
Den ficou movendo os lábios e a pensar sobre o nome do dragão, aproximava-se lentamente de Roderic para pegar o caneco de caldo. Com a comida em suas mãos, bebeu e virou o rosto para o dragão filhote. Começou a reparar nas feições de cada uma das cabeças.
- Não tem nome não. É meio estranho dar nome a um bicho de três cabeças, ainda mais quando elas são tão diferentes uma da outra. – respondeu e voltou a beber do caldo. – está bom isto aqui!
Roderic apenas concordou quanto ao sabor, sua feição expressava negação ao argumento do anão, não havia tantas diferenças nas cabeças do dragão, eram mais como detalhes. A cabeça da esquerda, primeira a terminar o pedaço de carne, era um pouco mais fina, os olhos mais estreitos e o focinho mais pontiagudo. Seus caninos eram levemente mais proeminentes que os das demais e os fundos de sua cabeça eram enrugados, mas não tinham caroços ósseos como as outras. A do meio tinha estes “chifres” bem visíveis, eram como calombos em cor mais cinzenta que o normal das outras escamas, o focinho desta cabeça era mais chato e também revestido por uma couraça mais forte, lembrando um bico na parte superior e numa ponta do lábio inferior. A da direita, somente agora recuperada do ataque da ave, terminava de mastigar, sua boca era um pouco menor e também seus caninos. Esta cabeça tinha os olhos mais chatos, a fronte larga e repleta de pequenos chifres rombudos, como escamas levantadas, assim como dois outros eram notavelmente maiores, como os dos cabritos, em sua cabeça. Eram muitos detalhes, pensava agora Roderic, mas ainda eram muito semelhantes também. Como irmãos costumam ser.
- Posso pegar mais? – perguntou Den, levando sua mão à concha na mão de Roderic, que viu-se pego no exame do dragão, que agora notava o interesse por sua figura e olhava firme de volta. Roderic entregou a concha e perguntou:
- Pensou em dar nomes individuais para eles?
- Talvez. – encheu o caneco e voltou a beber o alimento. – Tem alguma cerveja para misturar com isto aqui, já que não tem sal, piorar não vai! – e riu Den da sua própria contradição. Havia elogiado o caldo, mas não era comum que estranhos gostassem daquela comida do pai de Roderic, um caldo espesso de gordura quase sem tempero,... Mas misturá-lo com cerveja, era difícil de imaginar alguém com estômago tão forte!
- A-acho que tem sim. Meu pai guarda num barril que compra na taverna.
- Ótimo, pode me servir então. – o anão estendeu seu caneco meio-cheio, ou melhor, meio-vazio.
Roderic franziu o cenho, não gostava de desperdiçar comida, o anão ia acabar pondo aquilo para fora. Mas cedeu e foi a um barril encher o caneco, fez isto usando um pedaço de chifre amarrado no suporte ao lado. O dragão se aproximou nesta hora, interessado no cheiro do caldo.
- Aqui está, ei, o dragão também quer. Vou pegar uma panela para ele. Será que ele come ossos? – perguntou-se o rapaz, falando sozinho, ao entregar o caneco e dar meia volta rumo às panelas e bacias.
- Deve comer até pedras. Isto é um faminto! – exclamou Den, ainda sentido pela mordida que levou segurando a fome do dragão no braço. Por outro lado, bebia de uma vez só aquela mistura de caldo de cevada e aveia fermentados, a cerveja, com o caldo de gordura animal.
O anão limpa sua barba dos respingos com as costas da mão, o homem despeja na panela menor e mais rasa alguns pedaços de osso e caldo. Depois, segurava a panela para que o dragão comesse sem derrubá-la. Como o anão previu, não sobraram os ossos.
- Acha que pensam diferente, um do outro, como se fossem irmãos dividindo o mesmo corpo? – perguntou Roderic.
- Não acho, tenho certeza. Olhe para a do canto direito dele, calma e paciente, a última a pôr a cabeça na comida e a última a tirar. Lambeu até a última gota de banha. Nem por isso é menos brigão que o do outro canto, aquela cabeça lá é mais cobra que os outros três, só pensa em caçar e sempre ataca primeiro. O rapaz do meio é o mais sensato, mas acaba comendo menos, impõe-se sobre os outros dois, tem mais coragem. Parece um leão.
- Leão,... Víbora... Bode? Não é uma quimera? – Roderic ficou intrigado, além disto, o anão tinha percebido características muito mais profundas que ele. Também pudera, ele alegava ter visto o dragão nascer.
- Uma o quê? – perguntou Den, não gostando muito do nome, o dragão também levantou suas cabeças para entender.
- Um monstro criado por magia perversa, que transforma animais em uma nova criatura, com partes de todos os envolvidos. A criatura nova é muito agressiva porque seus instintos se confundem e geralmente só é fiel se encantada por um arcano. Do contrário, mata todos que se encontram em seu caminho. Dizem que a primeira Quimera tinha uma cabeça de bode, uma de leão e a outra de serpente.
- Leão, Bode e Cobra, para mim está bom, e para vocês? – Den bateu nas costas do dragão, rindo-se ao mesmo tempo. O dragão se assustou um pouco, mas não ficou agressivo, exceto por “Cobra”, que estreitou suas pupilas fendidas para o anão e o homem. – Parece que temos uma unanimidade, mas não vamos chamar o bicho inteiro de quimera, porque como sabemos, ele é um dragão genuíno. Não é?
- Sim, ao que tudo indica, ele só lembra uma fera quimérica, não é que seja uma. Já ouvi várias histórias de dragões com várias cabeças, até mesmo de uma Deusa-Dragão, a qual tem cada cabeça de uma cor e que é senhora de todos os dragões que têm escamas nas cores dela. – contou Roderic num tom de segredo, pois falava de uma deusa temida nas terras dos homens, embora poucos dela soubessem mais que isto e alguns mitos em que ela era um flagelo mesmo para os outros deuses.
- Então... Vamos dormir, dragão. Barriga cheia e teto coberto, numa noite que segue um dia de viagem, não há hora melhor. – sem ligar para os contos de Roderic, ou para seu zelo, o anão ajeitou-se sobre uma das peles que serviam de tapete e cruzou os dedos sobre o ventre.
O dragão ainda parecia ter fome, mas como Roderic não podia lhe oferecer toda a comida da casa, tampou a panela e sussurrou para a ave-íris que guardasse os pedaços de carne, lhe dando em troca um mimo, um punhado de grão dourado que estava guardado em uma caixinha de vime. Bode, Leão e Cobra olharam para o jovem com muita atenção, percebendo que aquilo selava um acordo que lhes frustraria tentativas novas de comer, deitaram o corpo perto do fogo e de Den, cerrando os olhos para dormir. Não demorou e Roderic fez o mesmo.


Era madrugada, quase aurora, quando uns dois urros despertaram Den, eram muito graves, mas não muito elevados, ursos. Den se levantou e não pegou a armadura, apenas o escudo e o machado. Suspeitava que fosse o pai de Roderic, mas não entregaria sua sorte a uma previsão. Para o Mestre de Feras, seria mais negócio matá-lo e tomar seu dragão, do que dividir os lucros em sociedade. Ainda mais se considerasse que o trabalho principal seria dele. Era o que Den faria, se estivesse no lugar do homem. Mas não estava, por isto, esperava armado.
Um assobio, Roderic acordava, ainda sonolento procurava forças para se apoiar e levantar. “Dois contra um”, Den contava, imaginando também os ursos e a tal raposa. Percebia também que estava com febre e que seus braços tremiam, contando também sua fraqueza como o último e pior inimigo.
Roderic ficou um pouco assustado, temendo uma traição do anão, mas via nele o cansaço e algum desespero naqueles olhos escuros, que refulgiam a luz escassa das brasas da lareira. A porta finalmente se abriu, após longos minutos de espera em que o braço de Den chegou a latejar de dor. Ele segurou sem abrir a boca para exprimir o pesar, esperou tão silencioso quanto podia. Roderic também não conseguia pensar em nada, assustado com a postura do anão. Até quando ouviu o som da cancela de madeira se fechar, indicando que o pai iria entrar agora.
- Dungh, se eu não for lá fora, meu pai vai pensar que há algo errado.
- E há, tem um dragão dormindo sobre os couros da casa dele. Espere ele abrir a porta e então nós conversamos. – disse uma voz exausta sob a barba.
Como imaginava, Roderic não conseguia resolver o impasse falando, abaixou os braços e esperou. A porta abriu-se, ninguém passou por ela, até que um som se deu nas panelas do outro lado, distraindo o anão por um tempo, suficiente para um arqueiro aparecer na porta com sua flecha pronta para o disparo.
- Que faz em minha casa, ladrão? – soou grave a voz, mas de um modo artificial, pois não era assim todo o tempo.
- Se já sabe a minha profissão, por que pergunta? – o anão respondeu levantando o escudo até a altura do nariz, sem temer o que teria mexido nas panelas, provavelmente um gato ou outra besta adestrada.
- Por que posso estar errado, peço desculpas depois, se for preciso. Não confie no escudo, não sou arqueiro de perder meu tempo. Abaixe a arma e fale.
- Tem sorte porque errou e porque ainda consigo falar de arma em punho, do contrário, lhe abria a cabeça como uma abóbora antes que se arrependesse.
- Parem! – levantou a voz o jovem, despertando o dragão, que levantou-se num giro só do corpo e chiou com todas as suas gargantas para o mestre de feras.
- Pela Deusa! Filho, o que acontece aqui? – o pai reconheceu a voz do filho, mas estava com os olhos fixos no dragão, e este tinha os seis voltados para ele. Den levantou um meio sorriso na face e largou o machado no chão, caindo de joelhos e só se detendo porque se apóia no escudo.
- Longa história, meu pai. Mas temos um serviço, ensinar um dragão. E Dungh, este anão, é quem o trouxe até aqui. Eu o hospedei enquanto esperava seu retorno.
- Então, homem, aceita o trabalho?
- Ora, mas... Discutimos isto depois, o senhor precisa de cuidados, está suando aos baldes. – o homem adentrou na cabana, baixando o arco e a flecha.
- Eu sei o quanto preciso e do que preciso. Primeiro, fechamos o negócio. Veja, eu não tenho dinheiro, mas posso trabalhar nesse seu cercado falso e manter lenha estocada para a chegada do inverno, além de cozinhar algo decente e fazer boa cerveja, também ensino algumas destas coisas para pai e filho, se quiserem. – sem nenhuma modéstia ao se comparar com as habilidades domésticas dos dois, Den não tinha como se gabar de saber cuidar de um lar, nem era de seu feitio, mas o fazia muito melhor que aqueles dois ermitões que viviam com animais selvagens.
- Hm,... Que seja! Eu nunca vi uma criatura destas com meus próprios olhos, valerá a pena por ele, pelo menos. Agora abaixe esta lâmina ou não faremos acordo!
Den cravou o machado no chão e estendeu a mesma mão que erguia a arma para selar o acordo.
- Me chame de Dungh e este é o meu dragão.
O mestre de feras suspirou, as cabeças não entendiam a conversa, mas ficavam aliviadas de ver Den de machado abaixado. Roderic sorriu, tremia um pouco nervoso, mas esperava dias bem melhores adiante. Seu pai deu a mão a Den, realmente suada, mas tremia menos. Depois daquela hora ele aceitou os tais cuidados, a começar por lavar seus ferimentos e passar ungüento cicatrizante sobre os cortes, relaxava também e Den ficou sonolento, mas sem dormir, nas próximas horas. Começava o treinamento do dragão.


O pai de Roderic se chamava Emeric, um homem alto, de boa compleição física e pele levemente bronzeada, a barba não era muito espessa e ele aparava os bigodes na altura dos lábios, tais fios eram negros, o cabelo, comprido até os ombros, era castanho. Os olhos eram escuros e brilhantes, como os de seu filho. Roderic era ligeiramente mais magro, tinha a mesma altura que seu pai e o cabelo era pouco mais claro, mantido curto e a barba custava a formar-se no seu rosto, uma limpeza por semana e mantinha-se de queixo liso. Seus trajes eram de couro e lã grossos, contrastando um pouco com alguns dos traços delicados que tinham.
Os seus métodos eram simples, baseados em auto-confiança e truques para ganhar a estima das feras com presentes nas horas em que faziam o que ele desejava. Mais sutil que isto, sua voz era suave ao sussurrar palavras para a fera, isto geralmente irritava as criaturas nos primeiros momentos, aos poucos iam se acostumando e a aqueles comandos eram fielmente seguidos, como se fossem movidos da própria vontade das feras. Além da voz, eles usavam os olhos, fixos e emitindo aquela confiança constante em que a besta não lhes fará mal, de tal forma que eles são reconhecidos como inofensivos.
No primeiro dia não surtiu efeito algum, nenhuma agressividade, nem muito avanço na intimidade com o dragão. Este tinha gostado do tratamento que lhe era dado, mas não se entregava aos truques dos adestradores. Den observava a tudo enquanto lutava contra a febre, nada entendia, mas observava. À noite, conversou com os dois sobre os resultados.
Todos já imaginavam que não seria fácil. Bem capaz de ser impossível, “domar” um dragão. O que Den não sabia é que isto era comum entre muitas feras “especiais”. Seres que apesar de terem corpo de besta, têm inteligência igual ao maior que a dos homens. Estes seres Emeric chamou de “guardiões”. Como se fossem espíritos encarnados em corpos físicos para proteger lugares de contemplação e seus semelhantes animais.
Os homens, dizia ele, muitas vezes são seus próprios inimigos por ignorância e cobiça, mas não soube explicar como, nem Den conseguiu entender. Para o homem que vivia na floresta, era fácil perceber como aquele equilíbrio era frágil e camponeses derrubando árvores ou tropas de nobres em busca de uma raposa em caça rompiam com este equilíbrio frequentemente. Den nunca se deu ao convívio com animais, eram apenas carne ambulante, madeira bruta, esperando a hora de serem colhidos e consumidos. Contudo, tinha um curioso respeito por eles desta maneira. Como também tinha pelas pedras e demais objetos. Traços dele que os olhos atentos de Emeric iam captando dia a dia que passavam juntos.
Den começou uma reforma na cerca, ali pôde ver como era o trabalho de Emeric e Roderic com os ursos. Depois de os domesticarem, os treinavam para voltarem a ser selvagens, exceto com eles e seus novos mestres. Como cães de guarda, defenderiam seu senhor com a própria vida, mas como grandes e majestosas feras, podiam entreter um público a qualquer momento, demonstrando ferocidade simulada ao lado de graciosas brincadeiras com cambalhotas e gestos humanóides. Para artistas ou fortalezas, os ursos cinzentos de Emeric serviriam, isto garantia para ele um alto retorno financeiro.
Mas tal retorno demorava a acontecer, o treinamento era lento, começava com filhotes e acabava anos depois. Por isto, Den deduziu que havia algum dinheiro guardado em algum lugar do terreno, possivelmente nos rochedos. Quando os dois encantadores saíam, ele acostumou-se a escalar a pedra em busca da tal reserva. Emeric parecia não suspeitar.
Quanto ao dragão, ele olhava com desafio para as outras feras, demorou a fazer “amizade” com qualquer uma delas, mas a primeira foi a raposa-brisa, com quem aprendia a caçar no bosque. Já a ave-íris, nunca se deu com ele. O adestramento não progredia com eles, Cobra sempre ameaçava atacar quem chegava perto demais de suas presas, mesmo para dar mimos em comida, Bode desconfiava da fala mansa deles e Leão simplesmente ignorava os gestos dóceis. Percebendo isto, bem como a inexistência de hostilidade com os treinadores, acharam por bem irem para a segunda etapa, ensinarem o dragão com suas três cabeças a agirem como guardas e a seguirem instruções de um mestre.
Os treinamentos físicos foram bem sucedidos, melhorou seu método de vôo, seus reflexos ficaram mais rápidos e ele entendia cada vez mais o que lhe diziam os instrutores, mas também entendiam Den, com todos os seus maus modos, o que nenhuma outra fera ali fazia. Ficou claro naqueles dias que tinham uma lealdade quase gratuita para com o anão, que Roderic custava a entender o porquê. Ele era um sujeito grosseiro e egoísta, não dormia direito porque passava metade da noite acordado, vigiando os demais e acariciando sua arma. Nunca se tornaram amigos, mas a admiração de Roderic pelo dragão crescia a cada dia. Passava boa parte do seu tempo com ele, correndo ao seu lado enquanto ele voava rasteiro ou seguindo coelhos no bosque para Den preparar o jantar.
Den cumpriu com sua promessa, a cerca e a casa foram reformadas, a comida melhorou e a cerveja ficou muito mais forte e menos rançosa, tirava Roderic dos eixos com apenas alguns goles, mas agradava seu pai. Ele e Den, “Dungh”, como era chamado ali, aprenderam a se respeitar. O anão viu que a voz mansa de Emeric não era sinal de covardia ou moleza, mas sim uma ferramenta, que para dominar aquelas feras ele precisava primeiro dominar seus próprios instintos, e era natural aos homens terem medo de muitas coisas. Emeric continha seus medos sem demonstrar uma bravura exaltada, parecia confiar em todos, embora não o fizesse e certamente não confiava em Den. O próprio anão não faria isto, e falou estas palavras algumas vezes para seus anfitriões. Além de bom caseiro e parceiro em conversas sobre assuntos mais variados, Den proporcionava a Emeric um outro tipo de companhia. Era um ser que estava mais para humano que para animal, mas era muito diferente dos homens, tanto que parecia um animal. Não via nele maldade, apenas instinto de sobrevivência.
Semanas mais tarde, apertava o inverno e os ursos iam para a sua última hibernação na floresta, na próxima primavera, depois de se recomporem da fome, acabariam vendidos, junto com outros animais que agora passavam o inverno dentro da cabana de Emeric. A raposa-brisa dormia junto à cabeça do seu mestre, aos pés dele ficavam animais aparentados a esquilos, vários deles, que podiam atuar como terceira mão de um homem quando necessário. A madeira do teto suportava várias gaiolas de falcões-de-correio. Existia até uma pupa que na primavera se tornaria um tipo enorme de mariposa. Ela era comprada a altos preços por mercadores para que reproduzisse um tipo de bicho-de-seda especial. As noites eram ainda mais insones para Den e ficou comum que ele preferisse o lado de fora gelado ao cheiro forte de animais da cabana. O dragão ficava por lá, em um buraco feito na terra para servir-lhe de ninho. Ele já havia crescido bastante, mas não ultrapassava o tamanho de um grande carneiro, ocupava pouco espaço na cabana e não tinha exigências para dormir, com freqüência alguns dos “esquilos” escondiam-se nele para buscar calor. Tinha escamas, mas seu peito era sempre quente ao toque. Comia apenas “carne de fora”, por isto, as feras de Emeric não o temiam.
O inverno chegava ao seu fim e em uma de suas longas noites frias, Den e Emeric conversavam em frente ao riacho congelado. Den falava em partir depois das vendas das feras, talvez alguém lhe indicasse onde levar seu dragão para empenho, onde pudesse finalmente ganhar seu dinheiro com ele. Emeric dava algumas sugestões, tinha de concordar, pois o fim da primavera e o começo do verão era o início de seu trabalho, que durava as duas estações seguintes. Negava apenas a necessidade de ter pressa. Roderic tinha se apegado ao dragão e Emeric não ia sentir falta de boa cerveja. Riram, cumprimentando-se com tapas nas costas que fazia a neve cair de seus ombros.
Mas foi nesta hora que Emeric percebeu morcegos e aves noturnas se agitarem. Alguém entrava na floresta. Emeric não levava arma senão sua faca, diferente de Den, que seguia com o machado sempre em seu cinto. Partiram com silêncio na neve, em busca de identificarem os invasores. Encontraram perto da cabana os homens que procuravam, armados de machetes e bestas, deviam suspeitar do tesouro de Emeric. Levavam tochas e óleo consigo, para atear fogo à cabana e procurarem depois. Estavam em quatro, era uma luta de dois contra um, além da desvantagem nas armas, mas Emeric e Den tinham a surpresa em seu favor.
Emeric chamou sua ave-íris com um assobio, imediatamente ela piou e sua voz invadiu as mentes dos ladrões, deixando-os indefesos para a investida do anão e do homem contras as costas adversárias. Um golpe de machado na coluna desmaiava o primeiro, logo causaria a sua morte. Den já estava pronto para o próximo, que começava a se recuperar do atordoamento. A facada de Emeric também foi certeira, mas a vítima caiu com a lâmina cravada em suas costas, tentando em vão tirá-la de lá e agonizando. Emeric ficou desarmado contra o próximo, que logo lhe cortou no braço com o machete.
Leão começava a acordar, despertando Cobra e Bode, este berrou quando levantou sua cabeça, dolorida pelo grito da ave-íris. Roderic começou a acordar, junto com todas as outras feras. Uma grande balbúrdia começou dentro da cabana fechada, imediatamente Roderic se levantou e não viu seu pai.
Um par de golpes de machado, o segundo adversário, livre da confusão mental, saía bem mais ágil que o primeiro. Ao terceiro, contudo, Den acertava a coxa do ladrão e no gemido de dor, girava o corpo e o atingia nas costelas, enterrando o ferro até os pulmões. Neste movimento é que viu o machete perfurar o ventre de Emeric, na mesma hora em que meia dúzia de esquilos furiosos voavam sobre o agressor de seu mestre. A vingança deles é interrompida pelo golpe final de machado contra a face do homem, Den tinha se jogado ao lado de Emeric e deixado o machado fincado na cabeça inimiga. Segurando o rosto do homem, ele falou:
- Viva, homem, ainda tem de ensinar muita coisa para aquele garoto. Ele ainda nem aprendeu a beber!
Emeric quase sorriu, balançando a cabeça numa negação, colocava as palmas da mão sobre o ombro do amigo anão.
- Ele não teria como aprender isto comigo. Conheço professores melhores... Não é? Antes que eu me vá, Dungh, quero te dar uma coisa que estava procurando... – engasgou-se então um pouco, no próprio sangue que vertia à sua garganta. Tossiu e cuspiu para fora o sangue escuro, mesmo debruçado começou a mexer na bolsa que sempre levava consigo no peito, ali havia várias iscas de carne, trigo e castanhas, além de “poções” que ele ministrava aos animais em sua mágica de encantá-los. Também tinha uma flauta, que tocava poucas vezes, a carregava ali.
- Eu... Procurando? Do que está falando? Deixe de delírios e fique quieto, um pouco de neve para limpar e pressão deve cuidar deste ferimento, depois eu mesmo costuro as suas tripas.
- Eu sei que procurava por isto, Dungh, o meu ... dinheiro. – então tirou de lá uma algibeira menor e dela uma moeda de ouro.
- Não! Eu não ia roubá-lo! Só estava curioso, queria saber quanto... Me perdoe, Emeric, não ia roubá-lo! Eu juro pelo meu próprio nome, Den! – a vergonha apertava o coração de Den, ele jamais tinha parado para pensar no que o levava a procurar pelo dinheiro do caçador. Talvez só estivesse tentando ser esperto, sobreviver a custa de outros que eram mais tolos. Ou então não queria mesmo prejudicar Emeric e era apenas curiosidade. Mas agora Emeric estava colocando aquela algibeira em suas mãos, sujas no sangue do próprio que o anão tentava inutilmente estancar.
- Tome. Fique com elas. Den, seu verdadeiro nome, eu não esperava ouvi-lo nem... Nem em uma hora como esta. Vai fazer melhor uso delas que meu filho, ele tem tudo que precisa aqui,... Meu filho...
As duas últimas palavras não eram para Den, mas sim para Roderic, que acabava de abrir a porta e ao seu lado passava co, rrendo o dragão, hostilizado com a cena sangrenta, sentia o cheiro de sangue no ar e hasteava o corpo com prontidão para uma próxima luta. Den se levantava com o dinheiro na mão esquerda, abaixo de si, Emeric fechava os olhos, seus esquilos estavam ao seu lado, sua bolsa aberta sobre seu peito e seu filho diante dele.
Roderic chamou alto pelo nome do pai, mas ele já não podia ouvir. Descrente do que acontecia, ele viu cinco corpos no chão, ladrões, que mataram seu pai, que jazia ao lado deles. O que poderiam roubar deles? Roderic via a algibeira com a moeda brilhante, dourada, na mão do anão e só veio uma idéia a sua mente, justiça. A sua boca, uma palavra:
- Traidor!
O rapaz sacou a faca de caça da cintura, correu com ela com destino ao coração do anão, que estava desarmado e se via incapaz de matar o filho do amigo. Den fechou os olhos e aguardou a morte daquela sua vida amargurada e desonrosa no fio da arma de um filho enfurecido. Mudou de idéia no último momento, não estava pronto para desistir da vida, ia lutar, mas outro fez isto por ele.
O dragão saltou sobre o garoto, Bode lhe acertou com a testa um golpe bem no antebraço direito, quebrando ossos e rasgando o músculo, ficava a fratura exposta no lugar e um grito de dor ecoava no vento. Roderic caiu no chão, disposto a continuar lutando, mas sua outra mão parou entre os dentes de Cobra, ele apenas apertou um pouco e vazou a carne, soltando pouco depois, para que a dor o ensinasse a não resistir. Ele não obedeceu, então foi a vez do Leão, ele mirou bem nos olhos do garoto e encheu seu coração de medo, ele hesitou em voltar a atacar, nesta hora o dragão levantou-se e deixou as patas dianteiras caírem sobre o peito dele, tirando todo o ar e também a consciência de Roderic.
- Chega, saiam de cima dele garotos. – Den tentou falar com calma, o dragão obedeceu e se afastou. Depois disto não falou-se mais nada, apenas agiram.
Den trouxe pai e filho para dentro da cabana. Tratou dos ferimentos do garoto o tanto quanto pôde naquele momento. Por conta do dragão, os ladrões tiveram as partes mais macias de sua carne devoradas e o resto despedaçado, agora o dragão já sabia que lhe interessava no corpo humano como alimento. Não muita coisa, os três iam virar comida para os falcões e corujas agora, depois para os corvos. O anão libertou os animais, pois ninguém ia poder tratar deles nos próximos dias. Seguiu os passos dos ladrões e encontrou seus cavalos, o que lhe permitiu levar Roderic até o povoado. Deixou ele ali com os bens pessoais de seu pai, a flauta, amuletos e a faca, pagou bem para que fossem os melhores cuidados possíveis e partiu de volta para a cabana, a qual pôs fogo com o corpo de Emeric dentro. Depois partiu para a estrada.
O dragão protestou, Bode olhou na direção da cabana em chamas e Cobra para o povoado, Den negou.
- Ele sempre ia suspeitar de mim. Também somos muito diferentes, eu não sirvo para viver numa cabana cercado de bichos pelo resto da minha vida, ou pelo menos, até este rapaz virar um homem. Sozinho isto acontecerá mais rápido, vai até ser bom para ele. Como foi para mim. Venham, rapazes, temos uma estrada para ganhar.
E Den não olhou para trás, mas dizem que os anões de tão desconfiados têm olhos na nuca, teria então “Dungh” se certificado de que o garoto passava bem? O dragão tinha três cabeças, mas não esta certeza, seguiu viagem, mas pensou várias vezes no garoto. Com o tempo, contudo, deixou de nele pensar. Tinha uma fome para matar.
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Terceiro capítulo, demorou, mas aconteceu várias mudanças súbitas nos planos, novo emprego, casa,... consegui fazer a primeira parte deste capítulo no carnaval, a segunda parte só no final da quaresma, no feriado prolongado. Espero que a próxima chance de escrever esteja bem perto. Até breve, divirtam-se.
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